Anticoncepcionais hormonais e câncer de mama: o que devemos saber

associação entre o uso de anticoncepcionais hormonais e o aumento da incidência de câncer de mama vem sendo estudada há algum tempo. Sem nenhuma forte evidência científica, o assunto vinha sendo considerado um mito. Entretanto, um recente estudo, publicado em dezembro de 2017 em uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, o New England Journal of Medicine, trouxe novos dados sobre o assunto.

O estudo avaliou 1,8 milhão de mulheres dinamarquesas com idade entre 15 e 49 anos sem história prévia de câncer, tratamento para infertilidade ou passado de trombose. Após um seguimento de dez anos, foram diagnosticados 11.517 casos de câncer de mama. O uso de qualquer tipo de anticoncepcional hormonal (incluindo o DIU de progesterona) se associou a 1,3 novos casos de câncer de mama para cada 10 mil mulheres ao ano e este aumento de risco se mostrou tanto maior quanto maior o tempo de uso dos anticoncepcionais hormonais.

Vale ressaltar que o acréscimo de risco para tumor de mama entre as usuárias que interromperam o uso do anticoncepcional desapareceu, o que nos permite inferir que o uso deste medicamento não está associado na gênese propriamente dita do câncer de mama, ou seja, no agravo genético que dá origem ao câncer.

Apesar de ser o primeiro estudo que mostrou relação direta entre o uso de anticoncepcionais hormonais e risco para desenvolvimento de câncer de mama, os resultados devem ser interpretados com cautela, visto que foi um estudo retrospectivo, com as informações retiradas de bancos de dados e aplicado em apenas uma população de mulheres dinamarquesas.

Desta forma, esperamos que outros estudos com metodologias científicas diferentes sejam realizados na tentativa de esclarecer este tema que ainda permanece controverso. Vale ressaltar que a classe médica não orienta a interrupção do uso dos anticoncepcionais.  É importante discutir com o médico ginecologista para que sejam avaliados os riscos e os benefícios do medicamento.

Adolfo Scherr é oncologista graduado em medicina pela Escola Superior de Ciências da Saúde de Vitória-ES,  membro titular da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e integrante do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia