Empodere seu nariz

“As pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podem escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração – ele penetra nas pessoas, que não podem escapar-lhe caso queiram viver…. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração“

Patrick Süskind  – O Perfume

Em uma degustação, você já deve ter visto alguém com o nariz dentro da taça, ficando lá por alguns segundos, com semblante pensativo, e depois de alguns segundos de transe, com toda alegria diz: “Descobri! É lichia!”.

Será que ele não está inventando tudo para parecer um entendedor? Pode ser, afinal ele pode ter lido o contrarrótulo e repetido o que leu. Mas, na verdade, é possível perceber centenas de componentes aromáticos no vinho e você pode fazer isso, com algum treino, exercitando sua sensibilidade.

O aroma e o sabor estão ligados ao cérebro e grande parte do sabor do vinho (ou comida) é perdida sem o cheiro. Não acredita em mim? Tente prender a respiração e sorver um pouco de vinho na sua boca. Então tente sem segurar o nariz e veja a diferença.

Para perceber os aromas do vinho, é necessária alguma concentração. O segredo é aspirar e deixar que a imaginação funcione livremente, interprete o vinho para você. Não precisa ficar investigando, procurando encontrar determinada flor ou fruta. Não existe certo ou errado, apenas sua sensibilidade aflorando. Deixe a imaginação e a memória trabalharem à vontade. Se o vinho lembra coisas que podem parecer estranhas, aceite.

Comece aproximando o vinho do nariz e inspire com a taça parada. Depois, gire delicadamente a taça, para que o vinho libere mais aromas. Você reconhecerá, em alguns segundos, aromas familiares, que já conhece. Os europeus, por exemplo, podem citar frutas que aqui sequer conhecemos. Em compensação, podemos encontrar, por exemplo, aroma de jabuticaba, algo que os europeus não têm a menor ideia do que seja ou com que possa parecer.

O aroma primário é o que vem da uva, é mais direto, sem tantas nuances. O buquê, também chamado de aroma secundário, vem com o envelhecimento. Os aromas primários desaparecem, modificam-se e dão origem ao buquê, mais complexo, mais sutil e não direto. São tantos os aromas que podem aparecer num vinho que seria impossível enumerá-los. Essa complexidade não deve assustar ninguém. Na verdade, degustar vinho, é muito prazeroso.

Para facilitar o processo completo de degustação, seguem alguns passos:

1. Observe o vinho contra a luz para observar sua cor e limpidez.

2. Gire delicadamente o vinho na taça, para liberar o aroma.

3. Aspire a pequenos intervalos, para que o olfato não se canse. Perceba e aproveite seus aromas.

4. Ao provar, sorva um pequeno gole e deixe o líquido passear pela boca, respirando com os lábios entreabertos.

5. Ao engolir, preste atenção. Procure relembrar as sensações e perceber o retro gosto.

Preparado? Seu olfato é mais poderoso do que você pensa…exercite-o!