O bonito e o feio na moda

Conceitual. Estranha. Ousada. Qual linha divide o que é o bonito e o que é feio na moda? Para muitas pessoas ligadas a este universo, a sandália excêntrica e colorida lançado em 2002 nos EUA, é considerado feio. Porém, quantas mães não adotam o calçado para seus filhos, pois seu material é antiderrapante, que o torna seguro para seus filhos não caírem? O mesmo calçado também é indicado a idosos, que se sentem mais seguros. No universo hospitalar, ele também foi adotado. Levando em conta isto, todos que usam a sandália são cafonas?

Esses calçados não são os únicos. As obras do Romero Britto, a pochete, o jeans rasgado, a calça de cintura alta, as ombreiras, a estampa de oncinha, a jarra de plástico em formato de abacaxi, a bandana, a samambaia, o colar de pérolas, a flor de plástico, o pinguim em cima da geladeira, as curvas na arquitetura, a bolsa de crochê, a alça de silicone, as mangas bufantes, os anéis nos dedos dos pés, o anel pulseira, a babuche, a poltrona de veludo, o batom molhado, o cabelo afro alisado, o axé, a música sertaneja, o psy-boot, entre outros, também são (ou foram) considerados de mau-gosto. Quem nunca se auto intitulou de juiz e zombou de alguns desses produtos?

Particularmente não gosto de música sertaneja, porém, conheço muita gente que gosta do estilo, canta e dança. Daí a pergunta: não gostar desse estilo musical me coloca como chique ou elegante? De jeito algum. É apenas uma questão de gosto. Ou seja, é algo cultural.

Um modismo (ou tendência, como, erroneamente é utilizada a palavra nos últimos anos) está ligado ao tempo. Quando um produto, seja roupa, acessório, corte de cabelo ou objeto de decoração, aparece numa novela, filme ou minissérie, ele torna-se popular. Inicialmente produzido por uma marca autoral, ele ganhará releitura pelos fast-fashion e se tornará uma febre e usado de forma excessiva, cai em desgraça e some. Anos depois, quem diria, é (re) descoberto, ganha status de cult, recebe o título de vintage, se ganhar uma nova roupagem, vira retrô e volta a ser moda.

A moda – assim como os campos de criação – é ligada ao tempo e à sociedade, é um mecanismo em eterna e continua mudança, é cíclico.

O modelo de camiseta branca e básica mudou sua modelagem desde que era usada na antiguidade em linho branco, com o nome de “Camisia”. Era utilizada como uma espécie de roupa intima para proteger das túnicas da transpiração. Ela passou por diversas mudanças até chegar ao modelo que conhecemos hoje.

Sua gola pode ser fina, ribana, V ou U, sua manga pode ser curta, longa, baby look ou não ter manga. Puro ou não, seu tecido é algodão ou poliéster e ela sofre interferências do tempo, porém, ela continua a ter o formato do T.

No livro ‘História da Feiura’, o escritor Umberto Eco aponta que, aparentemente, beleza e feiura são conceitos com implicações mútuas. Entende-se que a feiura seria o oposto da beleza, tanto que bastaria definir a primeira para entender o que seria a segunda. Certo? Nem sempre. As várias manifestações do feio através dos séculos são tão ricas quanto os conceitos do belo. São imprevisíveis do que habitualmente se discute. Além do mais, se o belo e o feio estão nos olhos de quem vê, também é certo lembrar que esse olhar é influenciado pelos padrões culturais e estético de quem observa.