Célia Leão

A deputada estadual Célia Camargo Leão, sofreu um grave acidente quando tinha 19 anos, que a deixou paraplégica. Após superar os momentos difíceis, foi à luta. Estudou, casou, teve três filhos e graças ao trabalho pautado pela seriedade, responsabilidade e respeito é uma das parlamentares mais atuantes do Estado de São Paulo. Já foi vereadora e está no em seu sétimo mandato seguido na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde atua especialmente nas causas sociais. Sua principal bandeira, desde o início da carreira política, é a defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Confira a entrevista dessa mulher guerreira.

 

Revista Prado – Quando você se tornou uma pessoa com deficiência? Conte um pouquinho da sua trajetória.

 

Célia Leão – Minha história se confunde com a de centenas de outras pessoas que são paraplégicas. Sofri um grave acidente de carro aos 19 anos. No início de uma noite chuvosa, o carro capotou, cai para fora do veículo e na queda quebrei a coluna. Até entender esse novo momento, vai algum tempo. É uma mistura de lágrimas, esperança, tristezas, alegrias e o tempo todo, muita luta. Assim foi para mim, e com certeza, é para todos. Mas, após um tempo, entendi que o valor da vida não está nas pernas ou no caminhar, mas em tudo que a vida oferece: família, amigos, estudo, trabalho, busca da saúde, sonhos a serem realizados e muita fé em Deus. Terminei minha faculdade de Direito na PUC-Campinas, casei com o melhor marido do mundo, e juntos estamos há 34 anos (Daniel) e dessa relação de amor e respeito, hoje temos Rodrigo (29), Diogo (26) e a pequenininha como eu chamo (Stephanie – 22). Eles são a minha medalha olímpica e meu maior troféu. Quase 42 anos se passaram e a cada dia vou escrevendo um pedacinho da minha história e lutando e trabalhando para que outros também possam escrever sua história.

 

 

RP – Como é ser uma pessoa com deficiência no Brasil? E em Campinas?

Célia – Ser deficiente não é fácil, nem no Brasil e nem em nenhum lugar do mundo. A maioria das cidades não estão preparadas para oferecer independência às pessoas com deficiência. Porém, nos últimos anos, tanto no Brasil como em boa parte do mundo, esta realidade está mudando, há uma consciência da necessidade da criação de um mundo possível para todos. Em Campinas vem se desenvolvendo e as ações do poder público, somada as da sociedade civil, caminham para a construção de uma cidade cada vez mais acessível. Problemas ainda existem, mas hoje temos a facilidade de nominá-los e buscar a devida solução. Um bom exemplo disso é que Campinas já tem grande parte do seu transporte público, acessíveis a pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. A Secretaria Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência, criada desde 2013 pelo prefeito Jonas Donizette, vem imprimindo um novo formato. Muita coisa ainda precisa ser feita, mas estamos num processo de transformação contínuo desde 1981, quando o Ano Internacional das Pessoas com Deficiência marcou a existência de milhares de pessoas no mundo que deveriam ser incluídas numa sociedade comum.

 

 

RP – O que você acha que já melhorou?

Célia – A cidade já obteve muitas conquistas nos últimos anos, especialmente na área de mobilidade. A prefeitura de Campinas tem um olhar bastante especial para as questões que envolvem as pessoas com deficiência. Um dos grandes modelos deste avanço que posso citar foi a revitalização da Avenida Francisco Glicério, onde foram empregadas todas as mais modernas técnicas para a construção de um local acessível. Rampas, piso tátil, corrimões, sinalização especial fazem parte desta grande obra em benefício de toda a população, principalmente para os deficientes e pessoas com mobilidade reduzida, que são as gestantes, os idosos, os obesos, entre outros casos. Campinas tem feito a sua parte.

 

RP – O que você acha que ainda falta melhorar?

Célia – Um dos maiores desafios, não só de Campinas, mas de todo o país, será levar os avanços na questão da acessibilidade para todos os cantos das cidades. Campinas, com mais de um milhão de habitantes, vai encarar este desafio. Uma das metas é fazer com que todos os prédios, públicos ou não, cumpram a Lei da Acessibilidade, de nossa autoria, que determina que sejam feitas adaptações para o acesso livre de todos, e ainda a Lei Brasileira de Inclusão e apropria Constituição Federal. É sempre bom ressaltar que nossa cidade tem feito a sua parte, com o trabalho e apoio do poder público, da sociedade civil, das instituições que aqui temos e de toda a sua gente.

 

RP – Em relação as políticas públicas de acessibilidade, você acha que estão evoluindo ou estão estagnadas?

Célia – Com certeza estão evoluindo. Temos uma das mais avançadas legislações do mundo neste sentido. Em todas as esferas de poder, municipal, estadual e federal, temos trabalhado para que possamos ter as cidades cada vez mais acessíveis. Se compararmos a realidade atual com 15 anos atrás, veremos que muita coisa mudou. Antes, pessoas com deficiencia eram pessoas ocultas na sociedade. Hoje elas estão em todos os lugares, na política, nas novelas, nos comerciais de TV, no mercado de trabalho, , no lazer, no turismo, as lutas sociais, hoje fazemos parte de um mundo que até então não nos via ou não queria nos ver.